Arquivos Mensais:fevereiro 2009

Sandália

Sandália

Quando passar por aqui qualquer dia
Deixa pra mim lá na portaria
Um envelope com a minha alegria
Que você levou por engano
Quando, enganada, saiu
Quando se foi apressada e aflita
Deixando pra trás preciosos pertences:
Meu coração e a sandália de dedo
Enchendo a sala de dor e de medo

De um nunca mais

Quando passar por aqui qualquer dia
Em vez de deixar o envelope com o Zé
Sobe, quem sabe eu te faço um café
Daqueles que a gente tomava à tardinha
Enquanto falava das nossas vidas
Que eram tão próximas
Tão pouco sofridas

Tão lindas de viver

Quando passar por aqui qualquer dia
Esquece que um dia saiu apressada
Lembra que aqui ainda é teu lugar
Fecha os olhos e sonha de novo
Deixa a sandália voltar pro seu pé
Acende uma vela e toma um café
Abre o envelope e põe a alegria

De volta no lugar

Olha Pra Mim

Olha Pra Mim

Olha pra mim mais uma vez
Que eu esqueci de perguntar
A tua música favorita
O teu número da sorte
Em que deus cê acredita
E esqueci de te falar
Que você tá tão bonita
Que tenho medo da morte
E que a vida é esquisita
Se você não está.
Fica só mais um instante
Que eu esqueci de perguntar
Se essa lágrima que escorre
Foi casual, um mero cisco
Ou se corremos o risco
De ser de dor
É de doer. É de matar
Essa saudade que inda vou sentir
Essa tristeza que inda vou chorar
Essa verdade que eu vou dizer
Olha pra mim pra não esquecer
Que eu te amo e vou sempre amar.

Tagliatelle

Tagliatelle

Alma quebrada. Que brada
Com o coração sombrio. Sem brio.
Sem amor, sem ódio. Só nada.
Quieto, tolo, fraco. E frio.

Coração sem cor. Sem ação.

Coração carente.
Que chora.
Coração doente
Que piora.
Coração demente
Se apavora.
Coração dormente
Ignora
As súplicas da alma
Que implora
Por inesgotável calma
Nessa hora!

E que o coração desista de desistir
Que o coração insista na insistência
Porque se a alma gêmea demora a vir
Quem pode ir buscá-la é a paciência.

Mas o coração vazio, vadio
Vagueia vagaroso. Acuado.
Desconfiado, arredio.
Seco, oco, roto. Derrotado.

Bate por bater. Dentro do peito.
Sem ritmo, sem força. Tão triste.
E num instante ímpar, imperfeito
Abandona a alma. E desiste.

Não!

Não!

Não é possível
Que tenha sido tudo em vão
O que li nos teus olhos
Não foi mera ilusão
À toa não foi, à toa não foi
À toa não
Só conheci amor quando peguei a tua mão
À toa não
Eu não posso entender
E nem quero querer
Que você suma e tudo se resuma
Em versos perversos,
Ditos malditos e
Pesados pesadelos
Que eram sonhos
E jamais serão
Tratos abstratos
Que se vão.
Não foi em vão. Não foi em vão.
À toa não.
Não!

Tão Difícil

Tão Difícil

Vai ser difícil…
Viver sem teu bom-dia
Vai ser difícil…
Ou talvez seja impossível
Sorrir sem teu sorriso
Respirar sem teu perfume
Imaginar sem tua inspiração
Vai ser difícil
Outro rosto no porta-retrato
Outros olhos pra me dar coragem
Outra boca pra fazer silêncio
(Vai ser difícil…)
Chegar em Ipanema
Escrever mais um poema
Falar de cinema com alguém
Vai ser difícil ficar sem…
Vai ser difícil ficar bem…
Tão difícil…
Vai ser tão difícil…
Tão difícil…
Achar graça em Agosto
E beber sozinho
Essa bebida sem gosto
Que já foi… o nosso vinho…
Vai ser difícil…

Janela

Janela

Ah! Eu preciso abrir a janela
Eu preciso ver o sol
Eu quero acabar com essa profana agonia
De todo santo dia
Desde o dia em que você foi embora
Desde aquela hora,
Eu me calei
Todo esse tempo
Mudando e mudo
Em todo esse tempo eu só escuto
Caetano
Calado, como um velho sábio monge
Tibetano
Vendo a minha desbotada eloqüência
Deixar nascer uma bem-vinda paciência
Vendo o meu orgulho imenso
Queimar como um incenso
Que impregnou o ar com um perfume de baunilha
E nostalgia,
Poderosa amônia,
A despertar minha indiscreta insônia
Que, ontem à noite, sem eu perguntar, me disse
Que é vazia e inútil
Minha metamorfose,
Se o amor foge
Pra longe,
Pra onde
Você não vê.
Por isso hoje eu abro a janela,
Fujo desse estéril castigo
Que, errado, julguei ser o meu abrigo
E para cada um que passa eu digo
Como se fosse o meu melhor amigo
Que eu amo você,
Que agora eu já entendi
E eu te quero aqui.

Anjinha

Anjinha

Vez ou outra
O amor chega de mansinho
A passos de passarinho
E ninguém nem se dá conta.
Aí apronta,
Desassossega a gente,
Faz a vida, de repente,
Virar de ponta cabeça.
Há quem mereça
Ganhar reciprocidade,
Achar a paz de verdade
No olho do furacão.
E há quem não.
Não sei de mim
Se não ou se sim.
Ou se talvez, talvez.
E dessa vez
O amor chegou devagar
Com a calma do teu olhar
Na brisa do teu perfume.
E eu, não estava imune,
Me vi de frente pro amor

Faço de conta que o mereço
E, por isso, não te esqueço
Desde o dia em que te vi.

Todo Dia

Todo Dia

Senti frio.
Senti medo.
Senti falta.
Corri pra tentar chegar antes
Mas por meros instantes
Cheguei atrasado.
Menti pra evitar estragar
E quando acordei
Já estava estragado.
Bebi pra esquecer que bebia
Pra esquecer
O que eu não esquecia.
Gritei pra arrancar do meu peito
O passado imperfeito
Que tanto afligia.
Chorei pra lavar a alma
E os olhos incrédulos
No que não enxergavam.
Escrevi por insegurança,
Pra manter a esperança,
Pra desabafar.
Rezei pra não te ver.
Pensei pra te alcançar.
Vivi pra não morrer.
Caí pra levantar.
Calei por falta de opção
E interlocutor.
Amei por falta de amor.
Beijei a boca errada
Sem paixão, sem desejo
E com gosto de nada.
Lembrei de você todo dia
Vivi a agonia
De um condenado.
Lembrei de você todo dia
E por covardia
Estive calado.

Eu Queria Hoje

Eu Queria Hoje

Eu queria hoje te pegar no colo
Pela última vez que fosse
Provar mais um pouco do doce
Que desprende dos teus lábios,
Encontrar nos alfarrábios
Versos de alguém que amou como eu te amo
E dizer-te, cada um, baixinho,
Ao teu ouvido e bem devagarzinho
Para notar o súbito arrepio
Tomando posse do teu pescoço.
Eu queria hoje te dar um abraço
Como se meu corpo fosse o laço
A envolver o melhor dos presentes
Que é o teu corpo para mim.
Eu queria hoje o teu sim.
Eu queria hoje um dia como todo dia
Mas com a sutil diferença
Da tua companhia
Para andar milhas pelo calçadão
Segurando de novo a tua mão
Com alegria no rosto
E paz dos justos no coração.
Eu queria hoje me reencontrar
Quando visse meu reflexo
Em teu olhar
E notar naquele teu sorriso lindo
De canto de boca
Que a vida pode ser pouca
Mas é linda quando se ama.
Eu queria hoje ter você na minha cama
E, com teu perfume tomando o meu quarto,
Recostar a cabeça no teu peito
E sentir que o mundo é perfeito
Naquele instante.
Eu queria hoje sincronizar nossas respirações.
E os nossos sonhos.
Queria deitar na rede abraçado
Queria rir um bocado
Do que ficou no passado
E que tanto me fez chorar.
Eu queria hoje, te fazer um filho
Que teria, então, o mesmo brilho
Que tu trazes na alma.